O desenvolvimento rural sustentável será tema da palestra de encerramento do Três Lagoas Florestal – 1ª Feira da Cadeia Produtiva da Indústria de Base Florestal da Região de Três Lagoas (MS). Xico Graziano, que é agrônomo, doutor em Administração, professor universitário, conferencista e escritor. Também foi deputado federal, chefe de gabinete do presidente Fernando Henrique Cardoso, secretário de Agricultura e, mais recentemente, secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
Em sua palestra no Três Lagoas Florestal, Graziano vai falar em defesa daquilo que denomina de agroambientalismo, que seria uma síntese do ambientalismo e do ruralismo no campo. A palestra está confirmada para o dia 13 de abril, a partir das 19 horas, no auditório Casa do Criador. Confira a entrevista de Graziano à Painel Florestal.
Painel Florestal – O crescimento do setor florestal em Mato Grosso do Sul – e especialmente na região de Três Lagoas, onde está instalado o polo de produção de papel e celulose –, é fato consumado e a tendência que se verifica é realmente de aumento da área plantada com eucalipto. Qual a recomendação que o senhor faria – ou quais os cuidados necessários –para que essa realidade seja bem conduzida, de forma a se consolidar um modelo sustentável e que possa beneficiar as pessoas que vivem aqui?
Xico Graziano: As regiões com silvicultura no Brasil, em São Paulo com certeza, mostram que as áreas de preservação permanente e o cumprimento da Reserva Legal são mais bem protegidas comparadas à agricultura ou pecuária tradicionais. Basta, portanto, seguir o padrão conservacionista oferecido pela tecnologia moderna, com uso correto de defensivos, respeito às áreas frágeis, proteção da biodiversidade. Programas de prevenção de incêndios são especialmente necessários.
Painel Florestal – É possível aliar a produção de base florestal à preservação ambiental? Como?
Xico Graziano: Existem inúmeros estudos, na ESALQ/USP, ou em Viçosa/UFMG, na Embrapa, todos comprovando que a silvicultura colabora com a preservação, desde que bem conduzida. O eucalipto ganhou uma injusta fama de desgastar o solo, devido aos erros cometidos em plantios passados e a uma certa prevenção exagerada contra as espécies exóticas. Mas, cientificamente, nada difere, por exemplo, o consumo de água do eucalipto em relação à massa vegetal produzida, do de uma espécie igualmente de grande porte.
Painel Florestal – Por que o plantio de florestas, sobretudo em consórcio com a pecuária, é uma das alternativas mais indicadas para os produtores que buscam alternativas de diversificação na propriedade?
Xico Graziano: Muitos pecuaristas estão se utilizando dessa integração produtiva para realizar a recuperação dos solos degradados das pastagens. E a silvicultura pode ser considerada uma espécie de “poupança verde”, com excelente retorno financeiro embora não a curto prazo.
Painel Florestal – Quais as principais perspectivas e tendências para o setor florestal brasileiro?
Xico Graziano: O Brasil com certeza vai ampliar, e muito, suas áreas com florestas plantadas, pois o mundo todo demanda celulose e componentes de madeira advindas de plantios sustentáveis, não mais do desmatamento das florestas nativas. E a produtividade nossa no campo, graças à nossa tropicalidade, muito sol e água, que propicia elevado potencial de crescimento das árvores, em tempo menor, está bem acima dos concorrentes. Florestas energéticas também começam a ser planejadas, visando a produção de pellets para geração de energia considerada renovável. Enfim, o futuro pertence às florestas plantadas e sua cadeia produtiva.
Painel Florestal – Qual a sua avaliação a respeito do Novo Código Florestal Brasileiro? O senhor acredita que nesta fase final de votação ainda possa haver alguma modificação significativa no texto?
Xico Graziano: Sinceramente, não consigo responder. O texto do Senado adveio de uma boa composição entre as forças políticas que articularam entre os ruralistas e ambientalistas. Mas certos deputados não gostaram do acerto final, temendo que as áreas em produção venham a ser prejudicadas, ao invés de consolidadas. Acho que a Senadora Katia Abreu e o Senador Waldemir Moka terão um papel fundamental nessa reta final da votação.
Painel Florestal – O senhor foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. A partir de sua experiência, o que o senhor identifica como maior dificuldade para que o poder público possa fazer uma boa (ou melhor) gestão das questões ambientais?
Xico Graziano: Primeiro, é necessário sair do discurso ambientalista para a busca de resultados na defesa ambiental; por isso meu slogan de gestão era o “ambientalismo em ação”, um passo além da análise e das discussões para concretizar as propostas. Segundo, torna-se necessário integrar as ações de governo, para que o meio ambiente participe das decisões e não fique à sua margem, isolado, para somente atuar quando os problemas aparecem. Terceiro, maior respaldo das forças econômicas e da cidadania, quer dizer, é necessário investir na articulação com a sociedade para se evoluir na política ambiental.
Fonte: Painel Florestal