26/12/2016 21h55

As florestas plantadas em Juiz de Fora e região são um passivo ou um ativo?

Artigo escrito por Leonardo Resende, diretor da Triqueda e Real Consultoria

Por: Leonardo Resende
 
Plantio de eucalipto para siderurgia. Fonte: Real e Triqueda Consultoria Plantio de eucalipto para siderurgia. Fonte: Real e Triqueda Consultoria

Tenho lido muito sobre a situação das florestas plantadas na Zona da Mata e Campos das Vertentes do estado de Minas Gerais, em especial sobre a região ao entorno de Juiz de Fora.

As matérias que tive acesso observam que foram plantados através do incentivo de grandes empresas (fomento florestal) uma área aproximada de 50.000 hectares de eucalipto e que os proprietários dessa madeira encontram dificuldades para sua comercialização.

 
Tabela demonstrativa por empresa Tabela demonstrativa por empresa

Nesse contexto, as empresas que promoveram os plantios apresentam dificuldades em manter as condições comerciais estabelecidas nos contratos. A tabela acima traz a relação das principais empresas do setor de siderurgia, celulose e silício policristalino que realizaram plantios na modalidade de fomento a produtores rurais do ano de 2000 em diante.

Como as previsões realizadas para o setor de florestas plantadas entre os anos de 2000 e 2008 não se confirmaram, fica nítida a interpretação de que todo esses plantios se tornaram um grande passivo para a região, sendo o entorno de Juiz de Fora o mais impactado, visto que as duas maiores operações têm seu centro de massa localizado na cidade, a saber: plantios da Dow Corning do Brasil (antiga CBCC) e ArcelorMittal Florestas (antiga Belgo Mineira).

Mas, existe uma visão mais racional sobre o valor dessas florestas plantadas. Aqui vão algumas questões:

1 - o setor de siderurgia brasileiro ter sido drasticamente afetado pela crise mundial, mais especificamente, a crise das hipotecas Imobiliárias norte-americanas de 2008, marcada pela quebra do conglomerado bancário liderado pelo Lehman Brothers Bank;

2- o estado de Minas Gerais ser o maior em área de florestas plantadas do Brasil, segundo dados da Associação Mineira de Silvicultura, com 1,5 milhões de hectares, sendo 95% dessa madeira destinada ao setor da siderurgia, conforme dados divulgados no IV Fórum Nacional sobre Carvão Vegetal & I Seminário de Energia da Biomassa Florestal, realizado em Belo Horizonte nesse mês de dezembro;

3- as estratégias do Governo de Estado e municípios não terem se preocupado em diversificar a matriz de consumo da madeira, incentivando outras indústrias (energia elétrica, briquetes e pellets, MDF, embalagens de madeira, entre outras) a se estabelecerem na região a fim de trazer uma maior estabilidade para o setor;

4- o Brasil se encontra na pior crise econômica já registrada.

Na verdade, essas florestas plantadas na região são um grande ativo para o agronegócio local e para o meio ambiente", à luz dos seguintes fatos:

  • Nossa região já passou por vários ciclos produtivos bem sucedidos, na agricultura e pecuária, desde a chegada dos portugueses ao Brasil, sendo que o primeiro registrado foi o ciclo da extração de madeira da mata nativa, sucedido pela atividade da mineração, da produção de café, até chegar ao seu último período de apogeu econômico com a pecuária de leite;

  • Após a mecanização da agricultura e abertura das terras planas no Cerrado brasileiro, essa região perdeu sua liderança produtiva no contexto nacional e encontra-se em uma longa fase de transição sem uma vocação de agronegócio definida;

  • A falta de uma visão estratégica para a região, que seja capaz de identificar novas matrizes produtivas, com capacidade de conciliar produção em terras de baixa mecanização e conservação ambiental, fez com que quase 50% de nossas terras apresentem algum estágio de degradação;

 
Tabela com a classificação das pastagens brasileiras por qualidade. Fonte: Rally da Pecuária 2012 Tabela com a classificação das pastagens brasileiras por qualidade. Fonte: Rally da Pecuária 2012
  • Quando as empresas fizeram seus projetos de incentivo ao plantio de florestas nos anos 2000, elas avaliaram a renda por hectare anual de várias regiões, decidindo por atuar em regiões com a menor renda obtida. Para surpresa de muitos, esses estudos concluíram que muitas terras eram deficitárias em renda anual por hectare, ou seja, eram rendas negativas;

  • Por pior que seja a receita das florestas plantadas nos dias de hoje, ela é superior às alternativas mais utilizadas na região, ou seja, a pecuária de leite e corte.

 
Tabela com a receita líquida por atividade e por praça.                                                                                                                                       Fonte: Cepea / Esalq Tabela com a receita líquida por atividade e por praça. Fonte: Cepea / Esalq

A tabela acima apresenta dados médios obtidos por regiões pesquisadas pelo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada - Cepea/Esalq/USP. A Zona da Mata Mineira não participa das pesquisas do Cepea. Por esse motivo foi utilizada a comparação com as cidades que participaram do estudo do Cepea e que apresentam condições produtivas próximas ou melhores do que a da Zona da Mata.

Se calcularmos a receita média de hoje de uma floresta de eucalipto na região de Juiz de Fora teremos a média de R$450/ha/ano, ou seja, 40% superior que o melhor resultado apontado na pesquisa do Cepea. Isso sem falar dos serviços ambientais adicionais que foram agregados a terras degradadas, em sua maioria, onde foram implementados os plantios dessas florestas.

 
Tabela com a receita líquida por atividade para a região de Juiz de Fora-MG.  Fonte: Real e Triqueda Consultoria Tabela com a receita líquida por atividade para a região de Juiz de Fora-MG. Fonte: Real e Triqueda Consultoria

Outro ponto a ser destacado é que, por ser feito em mosaico pequenos, os plantios da região são muito mais eficientes do ponto de vista ambiental do que as grandes áreas de monocultivo de florestas plantadas, como as do Norte de Minas, Sul da Bahia, Mato grosso do Sul entre outros.

Dentre os muitos serviços ambientais que são adicionados ao converter as terras degradadas da Zona da Mata Mineira em florestas plantadas, destacam-se:

1) O resgate de CO2;

2) A fixação de carbono no solo;

3) A melhora na produtividade de produtos por hectare;

4) A oferta de madeira de fonte renovável;

5) A redução da pressão nas matas nativas;

6) A menor velocidade de escorrimento superficial da água da chuva, favorecendo maior taxa de infiltração de água no solo e aumento da recarga do lençol freático, além de potencializar a produção de água nas nascentes da fazenda;

6) A conservação do solo, pois reduz a ocorrência de processos de erosão e lixiviação; entre outros.

Assim podemos considerar que, revendo nossos conceitos, avaliar as florestas plantadas da região como um grande ativo mostra toda a capacidade de gerar benefícios sociais, econômicos e ambientais, mesmo em uma época de profunda crise como a que atravessamos!

E nisso cabe mais algumas reflexões finais:

O que teríamos na região hoje se não tivéssemos plantado as florestas de eucalipto nas terras antes degradadas (em sua maior parte)?

Como plantamos, temos uma excelente reserva estratégica de madeira a ser oportunizada. Cabe a nós, agora, trabalhar alternativas de consumo da madeira e, dessa forma, não incorrermos no mesmo erro de ficar reféns de somente um segmento, como foi o caso do carvão/siderurgia.

Apesar das dificuldades do mercado, as empresas que promoveram o fomento se esforçam para encontrar alternativas de forma assertiva e ética. Dessa forma, não se omitem de suas responsabilidades assumidas.

Algumas empresas já chegaram à região para aproveitar essa madeira de forma diferenciada, como é o caso da VSC-Vertical Sustentabilidade e Comercial, que sinaliza uma possibilidade de estratégia de mercado a ser adotada. A VSC estabeleceu a base de sua operação em Juiz de Fora, e tem em seu "DNA" a diversificação da venda de madeira para atender o mercado interno e externo. Pode-se citar algumas das aplicações florestais que a VSC irá comercializar, tais como: madeira serrada, moirões, postes, pellets, cavaco, toretes, carvão vegetal, entre outros.

A diversificação do mix de consumo da madeira parece ser uma alternativa racional e viável economicamente para todos os stakeholders da cadeia!

Leonardo Resende é diretor da Triqueda e Real Consultoria

Contato: leonardoresende@fazendatriqueda.com.br

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