22/09/2017 01h15

Ameaças ao setor: apagão florestal e monocultura

É o caso de nossa excessiva dependência do eucalipto. Mais cedo ou mais tarde teremos de enfrentar este problema

Por: Hans J. Kleine
 
Hans J. Kleine Hans J. Kleine

Um apagão incomoda e traz prejuízo para muita gente. Tivemos um famoso apagão energético em 2001, que causou racionamento de energia no país inteiro. Dois anos depois se começou a falar também em um risco de apagão florestal, isto é, uma provável falta de madeira, mas que naquele momento ficou apenas na ameaça. Pensando bem, porque haveria de faltar madeira em um país que tem mais de 500 milhões de hectares de florestas, que cobrem quase 60% de seu território?

As nossas florestas são em sua grande maioria nativas e biodiversas, o que é ótimo para a vida no planeta, mas o seu crescimento é lento. Apenas agora, depois de quinhentos anos de exploração predatória, o Brasil está começando a aprender a usar as riquezas delas de modo sustentável e racional, isto é, sem derrubar trechos inteiros da mata e efetuando apenas cortes seletivos de árvores, que permitem a regeneração segundo critérios técnicos.

Devido ao elevado custo deste tipo de manejo, geralmente são colhidas apenas madeiras nobres e de preços compensadores, usadas em construção civil, artesanato e móveis de alto padrão, para o mercado interno e de exportação. Porém, existe uma enorme demanda para madeiras de custo mais acessível e de qualidade uniforme, usadas também na construção civil e na produção de celulose e papel, móveis e carvão, entre outras aplicações, que só pode ser suprida pelas florestas plantadas homogêneas. Assim, na virada do século 21, as florestas nativas eram responsáveis pelo suprimento de apenas 10% do consumo industrial nacional, enquanto que as florestas plantadas forneciam 90%, mesmo abrangendo apenas 7 milhões de hectares, ou seja, a pequena fração de 1,4% do total de nossas florestas.

Acontece que florestas plantadas exigem um constante investimento em novos plantios, não apenas para compensar as árvores que foram colhidas, mas também para acompanhar o aumento natural da demanda. Isso infelizmente não aconteceu durante as duas décadas finais do século passado, quando o total de áreas plantadas estacionou e deixou de acompanhar o crescimento acelerado da demanda, causado por um aumento das exportações de celulose, madeira serrada, esquadrias e móveis. Com a eliminação dos incentivos fiscais para reflorestamento, vigentes nas duas décadas anteriores e também por causa da crise econômica da dívida externa do país naquele período, os necessários investimentos se limitaram apenas à manutenção dos estoques. Com isso previa-se um apagão na oferta de madeira ao mercado, já a partir de 2005, principalmente para empresas consumidoras de menor porte, que geralmente não tem os seus próprios plantios. Houve até casos de importação de madeira dos países vizinhos, mas o pior foi evitado por obra de uma nova crise econômica surgida em 2008, desta vez mundial, que causou forte redução das nossas exportações e equilibrou a relação entre oferta e demanda no mercado interno. Então, mais por acaso, escapamos de um efetivo apagão florestal naquele momento.

Nos anos seguintes algumas destas dificuldades começaram a merecer a ação do governo, como por exemplo, a licitação de diversas grandes áreas da Floresta Amazônica para a exploração racional, por prazos de mais de trinta anos. Ele também assumiu o compromisso de recuperar 12 milhões de hectares de florestas até 2030, por conta do Acordo de Paris, ao qual o Brasil aderiu recentemente. Deste total, 3 milhões de hectares serão de novas florestas plantadas, o que corresponde a um aumento de quase 40% sobre a área existente hoje. Além disso, houve uma mudança estrutural significativa, com a recente decisão de tirar as florestas plantadas do controle do Ministério do Meio Ambiente e passar para o Ministério da Agricultura. Em função disso foi criado o Plano Nacional de Florestas Plantadas e também a Câmara Setorial de Florestas Plantadas, que vão unir os esforços do governo com os da iniciativa privada. Está também prevista, ainda para este ano, a aprovação pelo Congresso Nacional da liberação da venda de terras a estrangeiros, o que certamente estimulará a entrada de investimentos externos na silvicultura. Tudo isso deve fortalecer a oferta de matéria-prima e evitar um apagão florestal, ao menos nas próximas décadas.

À medida que aumenta a área das florestas plantadas, também aumentam os riscos associados à monocultura, que é o cultivo de uma única espécie em grandes extensões. É o caso de nossa excessiva dependência do eucalipto. Mais cedo ou mais tarde teremos de enfrentar este problema. Por mais que se reconheça a vantagem do seu cultivo, existem também enormes riscos econômicos e ambientais associados à sua monocultura, que precisam ser considerados e dimensionados. Entre eles se destacam os prejuízos causados por doenças, pragas, mudanças climáticas e incêndios florestais, que seriam bastante atenuados no caso de uma maior diversidade. Atualmente já atingimos a inédita marca de 75% das áreas plantadas com eucalipto e o percentual vem aumentando ano a ano, enquanto que as áreas plantadas com pínus, que é a segunda espécie mais plantada vêm diminuindo e hoje ocupam apenas 20% do total.

Os motivos da diminuição são tanto econômicos (crescimento lento), quanto ambientais (planta invasora, devido ao espalhamento das sementes pelo vento). Para todas as demais espécies sobram apenas 5% das florestas plantadas, demonstrando claramente o equívoco de nosso modelo de silvicultura. Este quadro de extremo desequilíbrio existe também em alguns poucos países, como Austrália, Uruguai e Portugal, mas não no grupo dos grandes produtores mundiais de madeira, do qual o Brasil faz parte. De que adianta termos a maior produtividade em nossas florestas plantadas, se a aplicamos apenas a uma ou duas espécies?

É urgente, portanto, tomar consciência do problema e reverter o quadro, criando políticas públicas que favoreçam o cultivo de outras espécies igualmente aptas a atender às demandas do mercado, inclusive algumas de rápido crescimento também. Precisamos aproveitar este momento favorável a novos investimentos florestais para criar incentivos à diversificação de espécies. Mesmo assim o quadro só seria revertido em longo prazo e por isso mesmo precisamos começar o quanto antes com o dever de casa. Em um próximo artigo pretendo detalhar estes riscos da monocultura, que precisam ser mais discutidos e considerados no planejamento das empresas e no Plano Nacional de Florestas Plantadas.

Hans J. Kleine - hjkleine@floripa.com.br

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