18/04/2017

A qualidade da madeira, a demanda do cliente e o manejo florestal

"Na área de manejo florestal, a madeira continua sendo produzida sem uma visão voltada à demanda da indústria"

Por: Vitor Cezar Miessa Coelho*
 
Floresta e toras de pinus no sul do País Floresta e toras de pinus no sul do País

Hoje, a produção de madeira a partir de povoamentos de Pinus segue dois regimes predominantes: Pulpwood - um ciclo de produção sem desbastes com cerca de 15 anos, ou Utilitywood - um ciclo de aproximadamente 20 anos com dois a três desbastes. Estes regimes de manejo são baseados na máxima produção biológica, e máxima rentabilidade, situação confortável para o produtor de madeira, mas que gera uma série de problemas na indústria, pelas características heterogeneas da madeira.

Em função desta heterogeneidade das características da madeira, na área de confecção de móveis e ambientes, a madeira de reflorestamentos foi progressivamente substituída por compensados, por chapas de partículas ou de fibras, e por madeiras nativas vindas do norte do país a um alto custo de industrialização ou transporte. Na área de construção civil, a maioria das madeiras estruturais ou de acabamento são também de espécies nativas vindas de outras regiões.

Diante deste cenário surge a pergunta: é possível a partir da demanda do mercado de madeira serrada de Pinus taeda L. estabelecer regimes de manejo florestal que produzam madeira com qualidade superior às encontradas hoje no mercado e propriedades mecânicas incrementadas pela distribuição homogênea dos anéis anuais, ampliando seu uso, especialmente considerando a máxima capacidade produtiva do sítio?

A influência dos tratos silviculturais na qualidade da madeira de pinus tem sido estudado por diversos autores e há um consenso de que o espaçamento original, adubação, podas e desbastes influenciam na formação do lenho e na qualidade da madeira (KLOCK, 1989).

Quanto à distribuição dos anéis anuais ao longo do fuste, eles seguem uma configuração de acordo com o nível de competição por fatores de produção da árvore: água, energia radiante e nutrientes. Assim, à medida que a árvore cresce, num povoamento, estes fatores ficam escassos e o crescimento radial do fuste é reduzido. Ao realizar o desbaste, a árvore livre de competição, irá reagir à maior disponibilidade dos fatores de produção e produzir maior quantidade de lenho inicial. Ao longo dos anos estas árvores, irão entrar novamente em competição e a formação do lenho inicial tende a diminuir, prevalecendo o lenho outonal. (LARSON, 1963). Esta configuração irregular dos anéis de crescimento característico dos regimes de manejo usuais que visam o máximo crescimento biológico, confere características indesejáveis à madeira gerando maiores custos e menor qualidade do produto final.

Segundo Dinwoodie (1966) no interior dos fustes ao longo do tempo, são geradas tensões que são definidas como forças internas estáveis. Ao abater a árvore estas forças são liberadas e constituem graves dificuldades para o processamento da madeira quando os cortes transversais e longitudinais são realizados e podem resultar em empenamentos e rachaduras (LISBOA, 1993).

Quantificar estas forças no interior das árvores não é possível, mas Ferrand (1983) sugere que no caso de coníferas, sejam influenciadas pelo regime de manejo florestal.

A largura e distribuição dos anéis de crescimento podem ser indicadores de determinadas características e comportamentos da madeira, como a homogeneidade das propriedades mecânicas, estabilidade dimensional e sua fácil trabalhabilidade. (KOCH,1972; KOLLMAN; COTÊ, 1968).

Com relação à qualidade da madeira, a proporção entre os lenhos tardio e inicial determina uma estreita relação com a massa específica e propriedades de resistência. (KRAMBEK; SIMÃO, 2003). No entanto, na área de manejo florestal, a madeira continua sendo produzida sem uma visão voltada à demanda da indústria. (HOSOKAWA, 1999). O que se percebe é a transformação de matéria-prima de baixa qualidade em produto acabado, onerando os processos industriais.

Nos povoamentos que visam à qualidade da madeira, é necessário o constante monitoramento das variáveis dendrométricas, especialmente a área transversal, de forma que a intervenção ocorra a partir do máximo ICA até o máximo IMA.

À medida que os incrementos correntes avançam, o desbaste deve ser programado antes que o IMA atinja seu valor máximo. Este controle sobre o manejo – manejo intensivo – se traduz em coníferas, no controle sobre o crescimento radial dos troncos, gerando madeira com uniformidade e homogeneidade nos anéis anuais. (FERRAZ FILHO, 2013).

O desbaste precoce, sistemático e seletivo pode proporcionar um ritmo relativamente rápido de crescimento, mas constante, permitindo a formação de madeira mais uniforme, sem as variações ao longo de seu desenvolvimento. Portanto, a homogeneização e uniformização dos anéis anuais demandam do controle e monitoramento dos incrementos correntes e rápidas e freqüentes intervenções. Os povoamentos que resultem em madeira com características qualitativas incrementadas devem sofrer vários desbastes de baixo peso. (GONÇALVES et al., 2009).

Além do controle sobre o crescimento, um programa de podas executado de forma científica, promove o alinhamento da grã ao longo da peça proporcionando o entrelaçamento das fibras (compressão) e o estiramento das mesmas (tração) e produz madeira livre de nós, de alta qualidade. (VORREITER, 1958).

O manejo intensivo promove também a máxima utilização do potencial produtivo do sítio, pois os desbastes são feitos somente dentro da janela de tempo onde os incrementos são máximos, dando ao investimento o máximo retorno do capital investido nos fatores de produção. Proporciona também rendas intermediárias, melhor seleção dos indivíduos que serão remanescentes dos desbastes pelo maior número de opções de árvores e o controle maior sobre os incrementos, o que não ocorre em regimes de manejo tradicionais.

A modulação do crescimento do ponto de vista econômico, significa que sempre vai ocorrer a alocação de fatores de produção nas árvores mais eficientes, ou seja, vai ocorrer sempre a produção econômica. A cada intervenção devem ser programados: o diâmetro meta, o número de árvores que serão abatidas no próximo desbaste, e que naquela situação o sítio terá todo o seu potencial produtivo utilizado.

A indução do manejo para a produção exige inovação tecnológica no manejo florestal, e passa por uma profunda reflexão sobre a eficiência dos processos que levam ao crescimento. Hoje existe conhecimento científico no que diz respeito ao comportamento do crescimento das árvores e ferramentas suficientes para que a inovação aconteça. (HOSOKAWA, 2013). Como citado por Dosi (2006), a inovação cria novas oportunidades de negócios, novos mercados e aumento da receita.

Na área de serrados a madeira produzida a partir do manejo intensivo (FERRA FILHO, 2013) proporciona redução de custos operacionais pela maior estabilidade dimensional das peças, pela redução de perdas durante e após o processo de industrialização e pela valorização da madeira a partir do incremento nas suas propriedades físicas e mecânicas além do melhor aspecto visual.

Segundo a simulação de propriedades mecânicas realizada com Pinus taeda - Compressão Paralela às fibras e Flexão - a produção de madeira sob regime intensivo, com anéis anuais homogêneos e uniformes proporcionam também ganhos na rigidez e resistência de tal forma que para as propriedades estudadas a espécie apresenta características superiores aos valores normativos brasileiros - a homogeneização dos anéis, resultado do dimensionamento adequado da velocidade de crescimento das árvores resulta em propriedades mecânicas melhores.

Schumpeter (1998) defende a teoria da desconstrução criadora, ou seja, a desconstrução do conhecimento, de processos, de metodologias, para a construção do novo. Neste caso, ocorre de fato a produção de um novo produto, que é originado a partir de uma nova matéria-prima, pela mudança no manejo do povoamento, que proporciona a melhoria da qualidade, originando um novo mercado para a madeira. Para que tudo isto ocorra, é necessário uma mudança profunda na organização.

Adaptando o conceito de Schumpeter (1998) associado a uma abordagem sistêmica do negócio, pode-se propor uma nova visão do produto e do negócio florestal, revitalizando as cadeias produtivas madeireiras a partir dos conceitos: a) Verticalidade: o manejo intensivo pode proporcionar ganhos econômicos numa cadeia produtiva florestal pela estabilidade na oferta e demanda de madeira; b) Orientação para a demanda: o cliente é quem vai determinar as características do produto desejado; c) Coordenação: através de APL’s ou Clusters - o fluxo de informações entre as empresas alimenta os processos decisórios de planejamento da produção e comercialização da madeira; d) Competição interna: diferentes produtores podem competir de forma salutar, melhorando a qualidade dos seus produtos; e) Alavancagem: pequenas melhorias nos processos produtivos individuais e coletivos podem catalisar a produção em termos de qualidade e quantidade.

A partir desta nova abordagem da produção de madeira, sendo o foco do negócio a demanda do cliente, a partir das características de rigidez e resistência da madeira, é possível determinar, implementar e monitorar o regime de manejo: espaçamento inicial, número de desbastes e ciclo de produção para produzir o produto desejado.

Este produto baseado em princípios econômicos e silviculturais cumpre o seu papel de atendimento das demandas da sociedade, remunera o produtor, atende melhor às industrias fornecendo a elas matéria-prima de maior qualidade e substitui os produtos de exploração de matas nativas sempre baseado em princípios de sustentabilidade e de manejo florestal.

Escrito por: *Vitor Cezar Miessa Coelho, Engenheiro Florestal, Doutor, Professor da ULT – Jaguariaíva/PR e Pesquisador CNPq/UFPR**

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