07/02/2017 17h13

Atire a primeira pedra quem ainda não torou uma lenha

Artigo de Sebastião Renato Valverde, diretor geral da Sociedade de Investigações Florestais, faz uma crítica à demora na geração de mais energia limpa via biomassa

Por: Sebastião Renato Valverde*
 
 
Sebastião Renato Valverde durante uma palestra Sebastião Renato Valverde durante uma palestra

... para fazer a cabeça tem hora... (Malandragem dá um tempo. Bezerra da Silva)

O vício e a comodidade são duas das principais patologias sociais no mundo, mas é no Brasil que se fazem mais presente e de difícil cura. O tratamento delas deve ser recheado de perseverança, criatividade e paciência. Jamais com o preconceito e a intolerância que só as agravam e que tem sido a marca registrada de um segmento da sociedade brasileira que tem a fama de ser alegre e descolada. A parcela mais ortodoxa deste segmento acha que a dependência só se cura com tratamento de choque. Para outra, com químico.

É difícil "fazer a cabeça" deste segmento com substâncias naturais. Criticam antes mesmo de testar. Em alguns casos, mesmo após a experimentação e a satisfação da fumaça mais limpa, resistem em adotar, permanecendo no seu aparente gueto de conforto.

Por mais que você consiga demonstrar para certos usuários de químicos que o consumo de compostos orgânicos, naturais, é melhor para si e para a sociedade, a resistência prevalece. Faz-se para eles simulações, apresenta testemunhos de aprovação por ex-usuários, leva-os in loco a demonstrações de cases de sucesso, etc, mesmo assim quase nada se altera e quando muda é a passo paquidérmico.

É preciso defender as mudanças porque elas são benéficas para a sociedade, para o ambiente, para os fornecedores e para os próprios consumidores. O lado positivo é que o antídoto para tais vícios é barato e se encontra nas plantações florestais junto aos produtores e engenheiros florestais.

Inadmissível que continuem poluindo, causando doenças e dependências. O que estão esperando para mudar? Vício demais? Medo da crise de abstinência com possível falta do produto natural? Dinheiro fácil de política de subvenção governamental? Seja lá o que for, não se justifica e tais facilidades públicas não virão. A "viúva" está quebrada e ela já ajuda muito se atrapalhar pouco, deixando de criar mais obstáculos burocráticos tributários, sociais e ambientais desnecessários.

É expressivo o ganho, em todos os sentidos, se as empresas promoverem as mudanças a favor do renovável, deixarem a dependência dos combustíveis químicos como óleo bruto, diesel e gás e também de eletricidade na produção de vapor industrial se substituí-los por biomassa, de preferência a florestal.

A substituição dos derivados de petróleo por de madeira proporcionaria ganhos para o Brasil. Eliminaria a poluição, reduziria os gases do efeito estufa (GEE), melhoraria o clima, geraria mais emprego e renda no campo e na cidade, absorveria parte do excedente das plantações florestais, melhoraria o mercado de madeira, estimularia os produtores e empresários do ramo, entre outros benefícios.

Tal substituição possibilitaria ao Brasil cumprir com o surreal e utópico acordo da COP 21 de reduzir em 37% as emissões de GEE até 2025, haja vista que o País assumiu estas metas audaciosas, garantindo que iria aumentar a participação da bioenergia na matriz energética como desafio às mudanças climáticas. Compromisso que continua no papel.

Além de todas as vantagens citadas acima, é visível a brutal redução nos custos da ordem de 60 a 70% a favor do biocombustível. No pragmatismo capitalista, onde a eficiência no uso dos recursos e a rapidez na tomada de decisão são os pontos fortes, como explicar que muitas empresas ainda usam o combustível fóssil? Seria até quase aceitável a demora na substituição se esta redução nos custos fosse pequena, mas significativa como ela é, torna-se injustificável.

Tudo bem que para aquelas empresas localizadas nas grandes metrópoles a substituição é comprometida pela questão da logística e do espaço para armazenamento da biomassa - algo contornável com os pellets, incipiente no mercado. Afora estas empresas, é inconcebível a pasmaceira na substituição. Exceção para aquelas combalidas que se encontram em "estágio terminal" financeiro.

Algumas alegam desconhecer o uso da biomassa. No mundo dos negócios e na era da informação instantânea alegar a falta de conhecimento é uma premonição da má gestão empresarial. Outras culpam a falta de capital para investimento. Também intragável, dado que existem investidores ávidos por alternativas rentáveis, como este da substituição, via parcerias. Algumas esperam políticas que subsidiem a substituição. Atitude infantil, amadorístico, se considerar que o governo está em frangalhos.

Tem também aquelas que esperam a crise político-econômica passar para ver o que vai acontecer com o país. Bobagem, pois desde quando o Brasil foi "achado" por Cabral (o Pedro Álvares. Não o que está no Bangu I), vive-se mais na crise do que fora dela.

Não dá para esperar pela substituição. É questão de competitividade. Se não fizer, os concorrentes fazem. Depois não adianta "chorar os lácteos derramados". Revoltante esta demora pela adoção da biomassa e, o pior, ainda tem aquelas que consomem o choque elétrico para gerar vapor, bem mais oneroso que até mesmo os combustíveis fósseis.

Para os "sonhadores" que têm a doce ilusão de que algum empresário irá mudar seu sistema produtivo sujo, "marrom", para um que seja apenas ambientalmente correto, esqueça. Se com uma margem significativa de redução do custo, as empresas são lenientes em mudar de insumo energético, quiçá dotarão um só porque ele é "verde". De verde, já basta o que tem no sobrenome do autor.

Ora, aquele que ainda não atirou na lixeira a pedra óleo (petróleo) para a produção de vapor, que o faça. Não sejais o último, pois as que fizeram já estão migrando para um plano superior, mais zen, o da cogeração onde terão vapor e eletricidade a custos bem mais baixo.

Por obséquio, acabem com esta droga de uma vez e não voltem nunca mais para ela. Migrem para a biomassa florestal, seja na forma de cavacos, pellets ou briquetes. Se não der, que seja na forma bruta da madeira. Nem que tenham que torar lenhas. Mude já e DIGA NÃO ÀS DROGAS.

*Sebastião Renato Valverde é diretor geral da Sociedade de Investigações Florestais (SIF) e Chefe de Departamento do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

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