O economista José Julio Senna, ex-diretor do Banco Central (BC), acredita que o rebaixamento da nota de crédito da França pela agência Standard & Poors, na sexta-feira, terá efeitos negativos sobre as condições de financiamento do mundo. Em outras palavras, deve encarecer o custo do dinheiro. Por isso, argumenta, algum efeito trará para o Brasil. "A intensidade dependerá da dimensão que a coisa adquirir", afirmou ao Estado. "Imaginar que o Brasil está totalmente imune e protegido seria uma insensatez."
A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida logo após o anúncio oficial do rebaixamento.
O que a perda do rating AAA pela França significa para a economia mundial?
Algumas notas (ratings) tendem a "colar" mais do que outras. Por exemplo: quando, no fim do ano, a Standard & Poors avisou que poderia rebaixar a zona do euro inteira, pensei que, se um movimento desses incluísse a Alemanha, o efeito para o mundo seria menos pior do que no caso de uma queda do rating da França. Foi o que ocorreu, aliás, quando os EUA perderam o AAA. Afinal, a Alemanha é o principal refúgio europeu em meio à crise e o país desenvolvido que mais cresceu no ano passado, entre outras características. Por isso, assim como os EUA, manteria a confiança dos mercados. Ou seja, o rebaixamento da nota não "pegaria" tanto. No caso da França, é diferente. É uma economia sem o dinamismo da Alemanha. A nota menor "cola" mais. O efeito prático é maior. Com essa redução da nota, é preciso resolver agora o problema que se cria para o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Eles estabeleceram uma composição na qual cada país participa com um determinado peso. Para que os papéis desse fundo sejam vendidos com o mais baixo custo possível, cada um dos países oferece uma garantia (165% do envolvimento de cada um). Vale lembrar que esse fundo levanta dinheiro para repassar a países como Portugal, Irlanda e Grécia. São nações que teriam uma situação ainda mais difícil se precisassem obter recursos no mercado por conta própria.
Essa questão é vital, porque o fundo tem relevância no papel de estabilizar a crise na região.
Pessoalmente, nunca tive muito entusiasmo por esse tipo de solução. Pensaram nesse fundo como mecanismo para capitalizar bancos, mas vemos que não está funcionando. É realmente estranho 17 países se cotizarem para capitalizar um banco na França, por exemplo. Em um linguajar mais simples, é um fundo sem dono, não tem comandante. Já era uma solução capenga. Agora, com esses rebaixamentos, vai ficar mais capenga ainda. Outra consequência importante está relacionada aos efeitos dessas medidas no comportamento dos investidores sobre ativos de mais risco. Ou seja, as condições financeiras, de modo geral, acabarão sofrendo alguma deterioração. A Europa, que fatalmente terá um quadro de recessão em 2012, fica com essa perspectiva ainda mais prejudicada.
As duas primeiras semanas do ano foram de relativo otimismo nos mercados. A perda do AAA pela França põe em risco essa situação?
Alguma piora deve haver. De modo geral, o mercado financeiro está sempre em busca de uma bala de prata, de uma tábua de salvação, de um passe de mágica que produza os resultados desejados. Inicialmente, havia uma ideia de se fixar os preços dos títulos europeus e colocar o Banco Central Europeu para comprá-los. Não vingou. Depois, veio uma ideia de Fundo Monetário Europeu. Também não foi em frente. Por fim, veio essa história do "grande financiamento" de dezembro. Só que os investidores continuaram fugindo dos papéis de longo prazo dos países problemáticos. Eles correram para os de curto prazo que, de fato, tiveram fortes quedas nas taxas de juros pagas aos investidores. Ao mesmo tempo, a economia americana passou a dar sinais um pouco melhores. No Brasil, também tivemos sinais mais concretos de recuperação econômica. Tudo isso alimentou essa onda otimista, mas os problemas não desapareceram. De concreto, não se atacou a origem dos problemas.
No mercado, muitos dizem que essas agências de rating vêm perdendo importância. O sr. concorda?
Até certo ponto, sim. Houve inúmeros casos em que as agências chegaram muito atrasadas, como na crise da Ásia. Mas há algo que não podemos esquecer: depois da nota dada, alguma influência há. Nesse caso da França, por exemplo, não se pode dizer que todos os efeitos foram antecipados pelo mercado. Ainda haverá desdobramentos.
Há algum efeito do rebaixamento da França sobre a economia brasileira?
Quais são os canais pelos quais a crise da Europa nos afeta? Vejo três. O primeiro é o ambiente de insegurança/incerteza, que contamina as expectativas de empresários. O segundo é o fato de o Brasil ser um país que se tem beneficiado bastante dos preços em alta dos produtos que exporta, como soja e minério de ferro. Esses preços dependem do comportamento da economia mundial. Por fim, há o canal do crédito. Se as condições financeiras pioram, a oferta de crédito para o Brasil fica mais restrita. Se o rebaixamento da França afeta as condições financeiras do mundo, algum efeito sobre o Brasil haverá. A intensidade dependerá da dimensão que a coisa adquirir. Imaginar que o Brasil está totalmente imune e protegido seria uma insensatez.
Fonte: O Estado de S. Paulo