Economia solidária e agrofloresta no Vale do Ribeira

artigo de Juliana Higa Bellini

quinta, 08 de setembro de 2011

Links Patrocinados

Anuncie aqui - Veja todos os anúncios

 O Vale do Ribeira responde por uma das regiões mais pobres, com o menor IDH do Estado de São Paulo e incluída no maior contínuo de mata atlântica preservada do país, mas não foi por isso que este artigo está valendo a pena.

É nesta região que está localizado o Bairro Guapiruvu, formado por descendentes de indígenas, negros escravizados e portugueses, constituindo-se hoje como uma comunidade caiçara que vive principalmente do cultivo de banana e seus derivados. A terra em que vivem é resultado de anos de ocupação histórica, reconhecida pelo INCRA como Assentamento Alves, Teixeira e Pereira. Segundo a Fundação Florestal:

“A Fazenda Boa Vista (que ocupava anteriormente à expropriação) tem potencial para o desenvolvimento sustentado das comunidades locais, através do reordenamento da ocupação, da introdução de práticas agrícolas alternativas e da conservação e preservação das áreas naturais nela presentes.” (Fundação Florestal, Processo F.F. N° 547, 2002)


Influenciados pela cultura urbano industrial durante os anos de 1940, os moradores do Guapiruvu tiveram que recriar seu modo de vida diante do desmatamento e do avanço da fronteira agrícola, associado a concorrência territorial da formação das primeiras unidades de conservação do Brasil e das proibições ambientais, o que resultou em diversos conflitos agrários. No entanto, para esta comunidade, estes eventos potencializaram sua capacidade organizacional repercutindo na formação da AGUA – Associação de Moradores e Amigos do Bairro Guapiruvu e na CooperÁgua – Cooperativa dos Produtores Rurais do Bairro Guapiruvu, baseada nos ideais da economia solidária.

No que tange à questão ambiental, as iniciativas solidárias surgem como uma alternativa, ao ter como base a sustentabilidade dos recursos naturais nas práticas agrícolas, somado a cultura tradicional destas comunidades, já baseadas em práticas de conservação dos recursos.

Sempre a margem da produção agrícola mercantil, a agricultura camponesa de subsistência se manteve nos bairros rurais e no modo de vida caipira, sendo invariavelmente desestruturada com a expansão da agricultura comercial. Contudo, são os efeitos da organização comunitária e do cooperativismo que tem impedido a dominação do grande capital no setor de produção agrícola, dando a agricultura camponesa a possibilidade de resistência e reprodução.

No Guapiruvu, a AGUA tem como meta o desenvolvimento econômico, solidário e sustentável e se autodefine como precursora de um novo paradigma de desenvolvimento para a comunidade, estabelecendo o ecodesenvolvimento, inclusão social, democracia participativa e a economia solidária. A CooperÁgua viria em seguida, em decorrência da AGUA e das dificuldades de produção e comercialização dos produtos agrícolas da comunidade.

As principais consequências da consolidação da CooperÁgua foi a diminuição ou extinção do uso de insumos químicos nos cultivos e a mudança progressiva no sistema de produção agrícola, do convencional para o agroflorestal ou agroecológico.

Para Defourny (1993), existem duas condições iniciais para a formação de iniciativas econômicas solidárias: a necessidade econômica e a necessidade de consolidação de uma identidade própria. No caso do Guapiruvu, ambas estavam presentes.

Atualmente, as conquistas da comunidade do Bairro Guapiruvu representam mais do que resultados econômicos, tornando seu território local de vida e comunhão entre os moradores do bairro, espaço de representação simbólica de sua cultura e modo de vida e a preservação dos recursos naturais com práticas agrícolas sustentáveis e hoje, o Guapiruvu consolida-se como uma comunidade com alto grau de amadurecimento gerencial e sociopolítico a partir do tripé formado pela AGUA, CooperÁgua e outras formações menores, mas não menos importantes.

Fonte: EcoDebate