artigo de Eder Zanetti
A vida é um processo dinâmico, que ocorre ao longo de intervalos de tempo variados. Ela evolui ao longo desses lapsos temporais, incluindo nos aspectos de biodiversidade relacionados com os ecossistemas. Um relacionamento que envolve a sinergia entre os elementos componentes e a configuração geral da paisagem ou cenário. A biodiversidade é resultado do cultivo dos ecossistemas, na mesma proporção em que os ecossistemas são resultado da biodiversidade.
No mundo de hoje, temos 40% da superfície terrestre ocupada pela agropecuária, e 30% de florestas. São cerca de 5 milhões de espécies, com quase 3 milhões de insetos diferentes. Em termos de plantas, temos algo como 800 mil espécies diferentes, que estão distribuídas em 200 países soberanos. A variabilidade genética, resultado da interação dos tipos de ocupação da superfície terrestre e da diversidade de espécies, tem sido perdida ao longo dos anos. O manejo adequado do material genético, possibilita a manutenção da variabilidade entre as espécies por centenas de anos.
Essa sinergia entre a ocupação humana e a conservação da biodiversidade, pode ser promovida em arranjos territoriais. Estratégias como a implantação de redes de bancos ativos de germoplasma e corredores ecológicos em mosaicos de usos da terra diversificados, incluindo Unidades de Conservação e os ecossistemas agrícolas e florestais, são eficazes na estruturação de um novo conceito de ocupação humana, o cultivo dos biomas.
O cultivo dos biomas, voltado para a prestação de serviços ambientais com a produção de alimentos, madeiras, fibras e similares, é uma forma moderna de aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro de todos os tamanhos. Ao enfocar os aspectos territoriais de configuração dos biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Atlântica e Pampa), para construção de ecossistemas agrícolas eficientes, os produtores brasileiros ganham uma nova vantagem comparativa, em relação aos demais agricultores, pecuaristas e reflorestadores do mundo.
Diferente de qualquer local do planeta, as propriedades rurais do Brasil contêm Reserva Legal e Área de Preservação Permanente. Espaços reservados para o cultivo dos biomas em que estão inseridas. Promover os produtos do agronegócio brasileiro que participam dos esforços de cultivo dos biomas, como essenciais para sua sustentabilidade, é utilizar das ferramentas de mercado para promover o uso e conservação da biodiversidade.
Assim como as plantações florestais de alta produtividade e ciclo curto diminuem a pressão sobre as madeiras das áreas naturais, também o cultivo agrícola de alimentos e a criação de proteína animal das fazendas, reduz os riscos e ameaças sobre a fauna e flora nativas, fazendo com que os ecossistemas possam ser utilizados de forma mais racional.
A produção brasileira, que tem a obrigatoriedade de contribuir para a preservação dos biomas, tem uma vantagem competitiva muito grande em relação a dos demais países. Os produtos brasileiros podem ter associada a sua imagem, o fato de que contribuem para preservas os biomas em que estão inseridos.
Assim, não teremos mais cultivadores de soja, ou de Eucalyptus, ou criadores de gado ou de suínos, mas sim cultivadores de biomas que produzem alimentos para o mundo. Sojicultores do Cerrado, Carne dos Pampas e Eucalyptus da Amazônia são produtos da atividade humana, inseridos e colaborando para o desenvolvimento sustentável dos biomas em que estão circunscritos.
Essa nova realidade do setor rural brasileiro já está sendo implantada em campo, e alguns produtores de vanguarda do estado do Mato Grosso iniciaram os procedimentos para implantar sistemas de cultivo de biomas nos territórios que ocupam. Existem pelo menos dois grandes projetos, um de cultivo do bioma Cerrado e outro de cultivo dos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônia, em fase de planejamento e com sua implantação iniciada no estado.
Diferente do que se poderia esperar, essa iniciativa está sendo executada pelos setores produtivos do estado, que construiu as propostas com base no que há de mais avançado na ciência da ecologia de ecossistemas. Os agricultores , pecuaristas e reflorestadores do Mato Grosso estão se confundindo com ecologistas, respondendo com políticas corporativas ao desafio de cultivar os biomas para um desenvolvimento sustentável do estado.
O projeto de cultivo dos biomas do Mato Grosso através da recuperação de APPs das margens dos principais rios do estado, com monitoramento eletrônico da rede de bancos ativos de germoplasma de espécies florestais nativas e checagem orbital da qualidade das águas superficiais, é um exemplo desse esforço, capitaneado pela ONG Ação Verde. O projeto de desenvolvimento florestal sustentável, com a inclusão do Eucalyptus, das áreas naturais, de um programa de Educação, P&D e Marketing e esforço de estruturação de políticas públicas, como forma de cultivo do bioma Cerrado, é outra dessas iniciativas.
Com a implantação das estratégias de desenvolvimento sustentável dos territórios rurais, baseada em cultivo de biomas, o estado dá um salto na inovação dos sistemas de uso e conservação da terra, utilizando das restrições legais como forma de ganhar competitividade nos mercados internacionais. É preciso que esse esforço venha a ser reconhecido pelo governo federal, e que ajustes nas políticas públicas sejam feitos, para fortalecer o papel dos agricultores, fazendeiros e reflorestados na prestação de serviços ambientais para toda a sociedade.