A arborização de pastagem e o bem-estar animal: melhoria do ambiente e garantia da produtividade
quarta, 19 de dezembro de 2007
Vanderley PORFÍRIO-DA-SILVA*O crescimento populacional, a urbanização e o aumento da renda devem duplicar a demanda e a produção pecuária e de seus produtos derivados nos países em desenvolvimento. Conforme dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), publicados em 2002, a produção pecuária está crescendo rapidamente e a estimativa para o ano 2030 é de que a pecuária produzirá mais da metade do total do valor do produto agrícola mundial. Este setor também é responsável pelo uso de cerca de 3,4 bilhões de hectares de terras para pastagens permanentes, o que corresponde a mais de duas vezes a superfície utilizada para cultivos agrícolas.O consenso existente destaca que os impactos mais preocupantes desse crescimento de demanda e de produção são o desflorestamento, a erosão e compactação dos solos, as emissões de gases componentes do efeito estufa, a poluição de águas, a mudança na cobertura vegetal e a diminuição da biodiversidade. Frente a tal cenário, as preocupações sobre meio ambiente e pecuária devem buscam estabelecer sistemas de produção em bases sustentáveis, para que a pecuária possa ser socialmente benéfica, economicamente viável e ambientalmente adequada. Nesse sentido, a arborização de pastagens adquire grande importância.Constitui uma prática de “adequação ambiental do sistema de produção”, por meio da combinação intencional de árvores, pastagens e gado numa mesma área e ao mesmo tempo, e manejados de forma integrada, com o objetivo de incrementar a produtividade e agregação de valor que pode compor elemento de marketing para a pecuária brasileira.
Os motivos para a arborização de pastagens são pelo menos seis:
- pressão para adoção de boas práticas na pecuária;
- crescente mercado para madeira plantada;
- ambiência e bem-estar animal;
- busca por produtos diferenciados;
- agregação de renda e valor; e
- sistemas produtivos favorecedores da biodiversidade.
As áreas de pastagens do Brasil estão sob condições climáticas que determinam o estresse térmico calórico em graus mediano e severo para os animais sem proteção; a estacionalidade de produção das forrageiras, podendo chegar a uma relação de 70% da produção na estação úmida e 30% na estação seca. Nas regiões abaixo do paralelo 22º Sul, a ocorrência de geadas (mesmo as de intensidade e freqüência baixas) torna-se um agravante para a estacionalidade de produção forrageira. Questões como a produção de forragem e o bem-estar animal são influenciadas pelo microclima determinando reflexos no desempenho animal. A presença de árvores, adequadamente dispostas, favorece o bem-estar animal bem como promove melhorias e proteção à produção forrageira. Ambos os aspectos constituem um importante problema da pecuária brasileira..Dentre os efeitos decorrentes da arborização de pastagens na produção animal, podemos destacar a redução das necessidades de energia para a mantença animal, os efeitos sobre a fertilidade e em animais recém-nascidos, e a proteção contra extremos de temperatura, ventos e radiação, pois sob condições de desconforto térmico, os animais empenham-se na busca da manutenção de sua temperatura corporal, assim, nas horas mais quentes do dia, buscam a proteção de sombras. Práticas que objetivem o bem-estar animal devem atender também aos hábitos de comportamento natural dos bovinos. Nas pastagens arborizadas os animais têm acesso ao tronco das árvores onde podem se roçar, manifestando hábito natural de defesa contra bernes e carrapatos.Além de proporcionar conforto animal, a arborização de pastagens pode promover a conservação e/ou melhoria da qualidade do solo por favorecer o controle da erosão, a ciclagem de nutrientes e adição de matéria orgânica; utilizar a radiação solar mais eficientemente e capturar nutrientes e umidade do solo em diferentes profundidades, diminuindo então a dependência de entradas externas de nutrientes ou estabelecendo melhor relação beneficio/custo. Aspectos estes que irão influenciar positivamente da qualidade da forrageira e, portanto, novamente no bem-estar animal.A presença de árvores na pastagem proporciona também a produção de madeiras, incrementando a renda por unidade de área, o que beneficia sobremaneira ao grande contingente de estabelecimentos rurais que têm na bovinocultura sua principal atividade e, estrategicamente necessitam complementaridade para a renda obtida. A tendência de mercados para produtos ambientalmente adequados abre uma oportunidade para a produção animal a pasto, diferencial já existente na bovinocultura brasileira, em um sistema capaz de contribuir para maior fixação de gás carbônico e mitigando a emissão de metano pelos rebanhos.Tanto a carne, o leite, o couro, quanto a madeira, produzidos em pastagens adequadamente arborizadas atendem melhor aos princípios preconizados pelos mecanismos da certificação de origem sustentável e de suas cadeias de custódia, considerando tanto aspectos ambientais como sociais e econômicos envolvidos sem seus produtos e derivados. Além de todos esses benefícios, a adequação ambiental da pecuária poderá neutralizar argumentos que utilizam o meio ambiente para a criação de barreiras não-tarifárias.
* Pesquisador em Agroecossistemas e Sistemas Silvipastoris, Chefe-Adjunto de Comunicação e Negócios Tecnológicos da Embrapa Florestas