Eucalipto: um estrangeiro bem comportado contribuindo com o desenvolvimento sustentável da indústria de papel e celulose no Brasil

terça, 18 de dezembro de 2007

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Moacir José Sales Medrado *

No Brasil, tanto o papel como a celulose são elaborados a partir de 100% de matéria prima oriunda de plantações florestais. São 1,6 milhão de hectares dos quais 74% são eucaliptos para produção de celulose de fibra curta da qual o Brasil é o maior produtor mundial e tem tido um aumento de 15% para 26% entre 1990 e 2004. É, portanto, o eucalipto, a vedete desse “real espetáculo de crescimento” que faz com que o setor programe até 2012 investimentos da ordem de US$ 14 bilhões, mesmo com os inúmeros entraves provocados por uma política florestal ainda em construção.Por ter grande capacidade de adaptação, rápido crescimento, elevada produtividade e inúmeras aplicações, o eucalipto é, talvez, a espécie florestal comercial mais importante do mundo.É plantado nos cinco continentes e em todos os estados brasileiros. As plantações de eucalipto no Brasil crescem 35 m3/ha/ano e podem ser colhidas em 7 anos. Como resultado de um intenso esforço de pesquisa, especialmente em melhoramento genético e silvicultura clonal, produzido em grande parte pela Embrapa Florestas, Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais – IPEF, Universidade Federal de Viçosa – UFV e Universidade Federal do Paraná - UFPR em associação com empresas florestais, em algumas regiões brasileiras chega-se a produzir 50 m3/ha/ano, havendo registros de até 70 m3/ha/ano.Hoje, além de contribuir como produtor de energia para empresas siderúrgicas, de papel e celulose entre outras, está presente no cotidiano de nossas vidas fazendo parte de inúmeros produtos como: roupas, pneus, filmes, tintas, medicamentos, alimentos, componentes eletrônicos, carvão, móveis, brinquedos, remédios, produtos de higiene e limpeza, postes, madeiramento de residências em construções rurais, e muitos outros. Com o lo Plano Nacional de Agroenergia pelo Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, lançado no final de 2005, o eucalipto exercerá, certamente um importante papel principalmente na Rede Nacional de Florestas Energéticas que deverá ser construída pela Embrapa Florestas e Instituto de Pesquisa Florestal – IPEF.Apesar desta grande contribuição, o eucalipto tem sofrido muita resistência no mundo e no Brasil. Há quem diga que o eucalipto seca a terra, não permite a existência de animais em seu sub-bosque, deixa o solo fraco, é coisa de latifundiário e ocasiona desemprego. Existem, no entanto, inúmeras respostas científicas que respondem a essas questões. Na verdade, o modelo inicial de plantações de eucalipto no Brasil trazia consigo alguns erros. O maior deles era o uso de grandes extensões contínuas de plantios dissociados, na maioria das vezes, das realidades locais. Assim, transformou-se, ao olhar de muitos em uma “exploração prepotente e arrogante”. O aprendizado contínuo e as pressões legítimas de grupos organizados em defesa do meio ambiente e das minorias (agricultores familiares, quilombolas, índios, dentre outras) levaram ao estágio atual onde a maioria das grandes empresas do setor de papel e celulose encontram-se certificadas ou em processo de certificação por sistemas de certificação de reconhecimento internacional como o FSC – Forest Stewardship Council o CERFLOR – Programa Brasileiro de Certificação Florestal. Pode-se dizer que a indústria de papel e celulose tanto do ponto de vista técnico como gerencial é hoje uma empresa moderna.Atualmente, grande parte das indústrias de papel e celulose adota um modelo em que parte da matéria-prima é produzida pela indústria e parte por pequenos e médios agricultores a partir de programas de “fomento florestal”.Com o fomento florestal, dependendo do sistema de uso da terra adotado o produtor pode manter suas atividades agrícolas e/ou pecuárias (curto prazo), produzir madeira para energia e/ou celulose aos sete anos (médio prazo) e garantir uma poupança verde para utilização em torno do vigésimo ano (longo prazo) quando poderá utilizar algumas árvores selecionadas para produção de madeira para serrarias e movelarias. Um desses sistemas denomina-se “sistema agrossilvipastoril” onde o agricultor inicia com agricultura, segue com pastagem e, ainda, cria ou recria animais associados ao eucalipto.Os sistemas agrossilvipastoris (modalidade de sistema agroflorestal) bastante estudados pela Embrapa Florestas e a UFV são economicamente viáveis tanto para pequenos como para grandes empresários. Para tanto, a Embrapa Florestas vem desenhando uma rede de referências nesses sistemas incluindo várias Unidades da Embrapa e parceiros públicos e privados. Assim, pelo histórico em nosso país, acreditamos que o eucalipto não deva ser visto simplesmente como uma “espécie exótica qualquer”. Precisamos valorizar a grande contribuição que ele vem dando na geração de empregos, impostos e divisas. Em função disso, institutos de pesquisa como a Embrapa, e universidades brasileiras associaram-se a empresas florestais para desenvolver dois importantes projetos na área de genética genômica: o Genolyptus e o Forests. Esses projetos visam o entendimento dos mecanismos genéticos, bioquímicos, moleculares e celulares envolvidos no processo de formação da madeira visando maior eficiência da indústria e a diversificação, ainda maior, de produtos.Em resumo, plantar eucalipto respeitando as regras ambientais e tecnológicas é rentável e funciona. Além de ser uma ferramenta de inclusão social, auxilia no seqüestro de carbono e tem a vantagem de despressionar a retirada de madeira das florestas naturais, principalmente, destinada à produção de energia e de produtos para construção civil e móveis.

* Engenheiro-agrônomo; doutor em Agronomia; especialista em Planejamento Agrícola e em Agrofloresta; Pesquisador e Chefe Geral da Embrapa Florestas