Floresta plantada poupa mata nativa

terça, 18 de dezembro de 2007

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Vitor Afonso Hoeflich *Marco Tuoto **O desenvolvimento tecnológico da silvicultura de espécies de rápido crescimento no Brasil guarda uma estreita relação com um programa estratégico setorial criado pelo governo federal (FISET – Fundo de Investimento Setorial) na década de 60. Na época, o FISET tinha o propósito de alavancar diferentes segmentos industriais no país, em especial a indústria de celulose & papel e a indústria siderúrgica.O FISET vigorou entre a década de 60 e 80, sendo, talvez, a indústria florestal, o segmento industrial que melhor aproveitou o esquema de subsídios e incentivos proporcionado pelo referido fundo de investimento. O que se vê hoje é resultado de um planejamento de longo prazo iniciado há 40 anos atrás. No início da década de 60, as plantações florestais no Brasil eram apenas 200 mil hectares.Atualmente, a área de plantações florestais no Brasil cobrem 5,7 milhões de hectares, localizada predominantemente nas regiões sul e sudeste do país. As principais espécies cultivadas são exóticas (pinus e eucalipto). No caso das plantações de eucalipto, as espécies predominantes são o E. grandis, o E. saligna e o E. urophylla, além de vários híbridos. As plantações de pinus tem como principais espécies o P. taeda e o P. elliottii. Outras espécies como, por exemplo, a acácia (Acacia spp), a gmelina (Gmelina spp), a seringueira (Hevea brasiliensis), a teca (Tectona grandis) e o pinho (Araucaria angustifolia), contribuem com apenas 6% da área total plantada no país. Desde a década de 60, o setor privado, em estreita colaboração com os institutos de pesquisa governamentais, entre eles a EMBRAPA Florestas, vem obtendo excelentes resultados na introdução de espécies exóticas nos plantios florestais comerciais no Brasil. As pesquisas voltadas ao melhoramento genético e manejo florestal têm colocado o país entre os primeiros no mundo em termos de produtividade florestal. Em média, as plantações de eucalipto no Brasil apresentam um IMA (Incremento Médio Anual) de 40 m3/ha.ano. As florestas clonais tem contribuído significativamente para aumentar os níveis de produtividade. Os melhores clones podem atingir 90 m3/ha.ano, mas isso representa resultados extraordinários, obtidos apenas em experimentos específicos e não podem ser generalizados para extensas áreas florestais. No caso das plantações de pinus, o IMA atualmente obtido é 30 m3/ha.ano, resultado de pesquisas voltadas ao melhoramento genético para produção de sementes melhoradas.
A produtividade das florestas boreais (Finlândia, Canadá, Suécia e outros) ou mesmo das plantações florestais na Ásia (China, Índia, Indonésia, Tailândia, entre outros) é muito baixa quando comparada ao IMA das plantações florestais no Brasil. Sob o ponto de vista silvicultural, a tecnologia aplicada a melhoria da produtividade das plantações florestais no Brasil, proporcionou um impacto positivo na competitividade do setor florestal. Cada vez mais, os custos de produção tem diminuído, pois o aumento na produtividade florestal faz com que seja reduzida a área necessária para o estabelecimento de novas plantações florestais (menor custo de aquisição de terras) e, conseqüentemente, diminuído os custos de implantação, tratos silviculturais, colheita, transporte, administração e outros.Entre os exemplos de técnicas bem sucedidas, o controle silvicultural e biológico da vespa-da-madeira, evita o uso de pelo menos 350.000 litros de inseticida por ano e impacto ambiental nos 350.000 ha de plantio de pínus afetados pela praga, além de resultar numa economia de cerca de R$62,5 milhões/ano. Considerando apenas as plantações comerciais das principais espécies introduzidas plantadas no país, a capacidade de produção sustentada é 184 milhões de m3 anuais. O eucalipto responde por mais de 2/3 (135 milhões de m3), enquanto que o pinus contribui com 1/3 restante (49 milhões de m3). As florestas plantadas desempenham um papel fundamental como fonte de matéria-prima para indústria florestal no Brasil. Embora as plantações florestais cubram 5,7 milhões de hectares, ou seja, menos de 1% do território brasileiro, elas respondem por 75% de toda a madeira consumida pela indústria florestal doméstica.

Atualmente, o consumo anual de madeira para uso industrial proveniente de florestas plantadas no Brasil é 155 milhões m3, o equivalente a colheita de algo em torno de 500 mil hectares anuais. Quase 35% do suprimento de madeira para uso industrial é baseada em pinus, enquanto os restantes 65% é baseado em eucalipto. A indústria celulose & papel é o maior segmento consumidor de madeira para uso industrial, respondendo por 1/3 de todo o consumo nacional. A indústria de serrados (serrarias) e a indústria siderúrgica também são importantes consumidores de madeira. No primeiro caso predomina o pinus, enquanto que a indústria siderúrgica emprega quase exclusivamente madeira de eucalipto. 

Excelência Nenhum outro segmento do agronegócio brasileiro experimentou performance similar ao verificado pela silvicultura de espécies de rápido crescimento ao longo das últimas décadas. É importante reconhecer a sua importância para o país, tanto no âmbito econômico como no âmbito social e ambiental. Estimativas indicam que o setor florestal brasileiro baseado em florestas plantadas contribuiu, em 2006, com pouco mais de 2% do PIB nacional e respondeu por um valor bruto da produção anual da ordem de R$ 57 bilhões. A geração de divisas não é menos importante. Em 2006, a indústria florestal baseada exclusivamente em florestas plantadas exportou o equivalente a R$ 11 bilhões e a balança comercial brasileira de produtos florestais tem se mantido extremamente superavitária. A arrecadação de impostos é bastante elevada, alcançando pouco mais de R$ 9,2 bilhões em 2006.Em se tratando de geração de empregos, estima-se que o setor florestal baseado em florestas plantadas gera mais de 4,3 milhões de postos de trabalho, entre empregos diretos, indiretos e de efeito renda. Além disso, as plantações florestais proporcionam melhoria da qualidade de vida da população rural não somente pelos empregos permanentemente gerados, mas sobretudo, pelas fontes alternativas de geração de renda. Além disto, a atividade silvicultural nas plantações florestais oferece importantes benefícios ambientais, pois resultam na conservação e proteção de cerca de 4 milhões de hectares entre áreas de proteção permanente e reserva legal sem nenhum custo aos cofres públicos. É reconhecido também que as plantações florestais prestam importantes serviços ambientais como, por exemplo: regulação dos recursos hídricos, seqüestro de CO2, auxílio da recuperação de áreas degradadas pelo uso de espécies leguminosas fixadoras de nitrogênio (como é o caso da acácia), manutenção e melhoria da qualidade da água, diminuição da pressão sobre as florestas nativas, entre outros. Uma pergunta que se coloca é: qual seria a situação do país se os investimentos no desenvolvimento da silvicultura de rápido crescimento não tivessem ocorrido e o suprimento para o consumo da sociedade fosse baseado exclusivamente em florestas nativas?Especialistas evidenciam que o principal impacto da ausência de plantações florestais no país seria uma maior pressão sobre as florestas nativas. Teoricamente, para se produzir o mesmo volume de madeira produzido a partir de plantações florestais, seria necessário a mobilização de algo em torno de 200 milhões de hectares de florestas nativas em regime de manejo florestal sustentado, em razão de sua baixa produtividade (1 m3/ha.ano). Isso representa menos da metade da área de floresta nativa pública de produção existente no País.As implicações da não existência das plantações florestais no país vão muito mais além, pois possivelmente a indústria florestal brasileira não teria se desenvolvido no país ou dificilmente ela seria tão competitiva como é nos dias atuais. A principal limitação do aproveitamento da madeira oriunda de florestas nativas, mesmo que parcialmente, pela indústria florestal, é a grande heterogeneidade de espécies (o que limita seu processamento industrial, principalmente para produção de fibra), aliada à baixa produtividade (1/30 do que produzem as plantações florestais). Ou seja, na hipótese de uma indústria florestal baseada em matas tropicais correr-se-ia o risco de destruir metade das florestas nativas brasileiras para se obter um resultado sócio-econômico medíocre, comparado ao que proporcionam as florestas plantadas. E, o que é pior, décadas seriam necessárias para a reposição da mata original nas áreas onde fosse extirpada a cobertura nativa, sendo que as matas de eucalipto oferecem cortes sucessivos enquanto se opera a reposição de áreas contíguas. O fato mais importante de se notar é que o modelo brasileiro de florestas plantadas e os serviços ambientais que esse modelo proporciona são possíveis porque há ganhos internos dos sistemas de produção que remuneram adequadamente estes investimentos. Mas o que fazer para viabilizar os serviços ambientais como aqueles proporcionados por matas ciliares ou matas de contenção de encostas, que representam apenas custos para o produtor rural? Como viabilizar ganhos sociais que a silvicultura ainda nega à agricultura familiar em razão dos altos custos de mudas, adubos e assistência técnica? É importante que o Governo Federal estabeleça e implemente políticas públicas que possam servir como instrumentos eficazes para mitigar os problemas enfrentados atualmente pelo setor florestal brasileiro. É mister que o Governo Federal estabeleça programas e projetos específicos para continuar promovendo o desenvolvimento de tecnologias aplicadas às espécies nativas, à silvicultura de espécies de rápido crescimento. É preciso que implemente instrumentos de apoio setor de base florestal, com ênfase na pequena e média produções, por meio mecanismos caracterizados como de investimento social, para ampliar a disponibilização de material genético de qualidade e assistência técnica compatível, para disseminar em todo o Brasil, nas pequenas e grandes propriedades, os serviços ambientais que a silvicultura pode prestar.* Engenheiro Agrônomo, M. Sc, D. Sc., professor da Universidade Federal do Paraná e pesquisador da Embrapa Florestas.**Engenheiro Florestal, pós-graduado em Economia Florestal e gerente de planejamento e controle das operações da STCP Consultoria, Engenharia e Gerenciamento.