Vanderley Porfírio da Silva*O Paraná é um dos maiores produtores de novilho precoce, tendo, proporcionalmente a sua área de pastagem, a maior produção de boi a pasto. Esses aspectos relativos à sanidade, produtividade e qualidade, oriundas do cruzamento industrial e do bom manejo dos rebanhos criados a pasto, fazem com que o consumidor tenha cada vez maior qualidade de produto, o que hoje pode ser garantido através da rastreabilidade.A pecuária paranaense está apta para dar mais um passo em direção ao mercado da produção ambientalmente adequada.Imaginemos o alcance do marketing possível em um sistema de produção animal capaz de contribuir para o sequestro e fixação de gás carbônico (CO2), para menor emissão de gás metano (CH4) pelos ruminantes, todos importantes gases componentes do “efeito estufa” Imagine podermos dizer que a carne, ou o leite, ou o couro produzidos numa determinada região vem de um sistema de produção que é mais saudável, que é ambientalmente correto e que está contribuindo para a melhoria de vida no planeta.Pois é exatamente a oportunidade que se abre para as áreas de pecuária que, organizadamente, conseguirem estabelecer indicadores de quanto e como podem produzir tais efeitos.Com quase 50% de seu território coberto por pastagens, a pecuária do Paraná poderá se tornar também grande produtora, não somente de gado de qualidade, mas de madeira também de alta qualidade, num novo sistema de produção, alinhado com as tendências mais atuais da pesquisa e onde a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO – reconhece que a sustentabilidade da produção animal deve passar por Sistemas Silvipastoris. Nesse sistema, o número adequado de árvores por hectare permite a criação animal ao mesmo tempo em que as árvores crescem.A madeira é uma das sete matrizes que, interligadas, compõem o conceito de commodities ambientais e o Paraná possui condições excelentes para a produção de madeira com alto valor agregado. No passado, a florestas era até um empecilho para o que se considerava ideal de desenvolvimento da época. Hoje não, hoje não é mais empecilho. Ela é necessária principalmente por seus produtos e por por sua condição de permanência ou de longa vida. A floresta acaba alterando o ambiente do seu entorno proporcionando favorecimento aos cultivos d ciclos curtos, às pastagens, às criações, à conservação e produção de água, à conservação do solo.Regiões que produzirem madeira, mas não qualquer madeira e sim madeira para desdobro, para serra, segmento para o qual está projetado um crescimento de 4,5% ao ano, terão a possibilidade de ampliar sua riqueza atraindo indústrias de base agroflorestal para melhorar o seu desempenho econômico e circulação de riquezas, ampliando a possibilidade de emprego, bem estar e conforto para as pessoas.As populações, de um modo geral, têm necessidade de alimentos de qualidade, preços baixos, água potável, ambiente climático regulado, lazer e ar puro. O ambiente rural, por suposto, precisa produzir como forma de sua existência, produzir para sua sobrevivência, para seu desenvolvimento e progresso, para atender às necessidades das populações de alimentos e outros produtos, mas, acima de tudo, produzir de forma sustentável no tempo e no espaço. É preciso garantir a manutenção da capacidade produtiva dos recursos para as gerações vindouras.A base para o desenvolvimento está na integração e interação dos componentes pecuário, agrícola e florestal, todos de maneira a contemplar as questões pertinentes à mitigação de seus impactos no meio ambiente, permitindo a máxima biodiversidade possível, o uso adequado do solo, a produção e conservação da água.O efeito da floresta na manutenção da fertilidade, recuperação e controle da erosão do solo, nas questões de produção de água, sequestro de carbono, melhoria de microclima inclusive na associação com cultivos e criações, é inegável.
A contribuição do setor florestal na economia e para o desenvolvimento também é inegável e a perspectiva futura aponta favoravelmente para aqueles que produzirem madeira nas próximas décadas.A necessidade atual de plantios florestais no país está defasada em 170 mil hectares para a produção de papel e celulose, 250 mil hectares para a produção de carvão vegetal e 130 mil hectares para a produção de madeira sólida. Somente no estado do Paraná seria necessário o plantio de aproximadamente 53 mil hectares por ano, para evitar uma série de problemas que podem advir da falta de matéria prima para o setor de base florestal.Em valores de hoje, um hectare de pasto associado com a produção de madeira pode render algo em torno de 400 metros cúbicos de madeira para serra ou laminação em turnos de 15-20 anos, sem prejuízo para a produção animal. Enquanto a madeira não chega para a colheita, o produtor continua tendo a produção animal em termos mais saudáveis e ambientalmente adequados.
* Pesquisador em Agroecossistemas e Sistemas Silvipastoris, Chefe Adjunto de Comunicação e Negócios Tecnológicos da Embrapa Florestas.